Olhares Clássicos 2019

Uma das mostras mais procuradas e aguardadas pelo público do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba é a que apresenta a já tradicional Olhares Clássicos. A cada ano, a programação do Festival propõe uma listagem de filmes que permite que o espectador viaje de maneira panorâmica por importantes momentos na história do cinema, reencontrando ou conhecendo pela primeira vez a obra de alguns dos nomes mais relevantes dessa história. Para a sua edição de 2019, a mostra volta a propor, em cópias digitais de alta qualidade, uma combinação de filmes consagrados aos quais o público de Curitiba não tem acesso numa sala de cinema há muito tempo com as primeiras exibições no Brasil de obras restauradas menos conhecidas do grande público e que revelam obras e artistas que a história mais tradicional do cinema relegou para espaços mais nas suas margens.

“A questão do que torna um filme um clássico acarreta diferentes respostas”, diz Aaron Cutler, um dos programadores de longas-metragens do Olhar de Cinema. “Duas dessas respostas são atualidade e urgência. Os filmes da seleção de Clássicos deste ano falam diretamente do seu período para o nosso por meio de uma relevância envolvente. São grandes obras que podem ser assistidas várias vezes, adquirindo assim novos significados e encantos. Estamos muito orgulhosos de fornecer tais filmes para o público deste ano em cópias cuidadosamente restauradas e, assim, oferecer às pessoas a oportunidade de descobrir ou redescobri-los”.

Pois agora é chegada a hora de conhecer os 5 primeiros programas que irão compor a mostra OLHARES CLÁSSICOS nesse ano. Uma das características já tradicionais que a mostra assumiu ao longo dos anos é a de permitir ao seu público rememorar o trabalho de alguns nomes centrais do cinema mundial que nos deixaram desde o ano anterior do Festival. Nesse sentido, o Olhar de Cinema presta homenagem e traz para o seu público alguns filmes que marcaram época no cinema do mundo e do Brasil em especial. É o caso, por exemplo, de ‘Cantando na Chuva’ (1952), um dos musicais mais celebrados da Era de Ouro do cinema americano é o filme que faz a crônica da mudança radical que representou para o cinema mundial a chegada do som sincronizado aos filmes. Co-dirigido por seu astro Gene Kelly, esta é ainda a mais célebre realização de Stanley Donen (1924-2019), cineasta e coreógrafo com quase 30 longas no seu currículo, considerado um dos grandes nomes do cinema musical.

Ator Gene Kelly em cena de ‘Cantando na Chuva’, 1952

Da mesma forma, Nelson Pereira dos Santos, nascido em 1928 e falecido em abril de 2018, é unanimemente reconhecido como um dos maiores cineastas da história do cinema brasileiro, com uma obra incrivelmente plural e profundamente humana que atravessa impressionantes seis décadas desde o seu primeiro curta aos últimos filmes. O filme que o Olhar de Cinema apresenta, ‘Memórias do Cárcere’ (1984), é uma obra de maturidade, propondo uma adaptação de um clássico da literatura brasileira (outra das especialidades de Nelson), que atravessa gerações e segue servindo como um libelo pela liberdade artística e a resistência política em tempos de totalitarismo.

Nelson Pereira dos Santos, nas gravações de “Memórias do Cárcere”, no centro da imagem e atrás da câmera.

Outros dois cineastas que nos deixaram nos últimos meses talvez sejam nomes menos conhecidos pelo grande público, tendo criado suas obras em espaços mais alternativos ao centro da indústria do cinema. No entanto, suas contribuições para a história do cinema são igualmente centrais e servem de inspiração para muitos cineastas contemporâneos. É certamente esse o caso de Jonas Mekas (1922-2019), cineasta e escritor lituano que emigrou para os EUA logo após a Segunda Guerra Mundial. Seus filme-diários são fruto de registros do cotidiano ao longo de décadas, em que figuram seus familiares, amigos (vários deles cineastas) e o universo artístico de Nova York, e nos quais os momentos de felicidade e beleza surgem como lampejos em meio ao fluxo fragmentado de uma vida tornada filme. No longa-metragem que será exibido no Olhar de Cinema, ‘Reminiscências de uma viagem à Lituânia’ (1972), o diretor retorna pela primeira vez ao país natal após quase 30 anos de exílio forçado. Falecido em janeiro deste ano com impressionantes 96 anos, a contribuição fundamental de Mekas excedeu o campo da realização englobando também o exercício de crítica cinematográfica e a fundação da Anthology Film Archives, o mais importante instituto de preservação e exibição do cinema experimental e independente estadunidense.

Já o inglês Nicolas Roeg (1928-2018), ainda que tenha encontrado algum reconhecimento por filmes como ‘O Homem que Caiu Na Terra’ (1976), com David Bowie, ou ‘Inverno de Sangue em Veneza’ (1973), realizou a maior parte da sua obra de maneira independente e sempre testando os limites da linguagem narrativa do cinema em suas dimensões plásticas e sonoras. Diretor de fotografia de formação, tendo trabalhado nessa função inclusive com François Truffaut em ‘Fahrenheit 451’ (1966), Roeg acumulou pela única vez na carreira a função dupla de fotógrafo e diretor no filme que exibiremos no Olhar de Cinema: ‘A Longa Caminhada’ (1971). Trata-se de uma odisseia quase lisérgica em que dois jovens brancos tentam sobreviver nas paisagens quase sobrenaturais do “outback” australiano, contando para isso com o apoio de um jovem aborígene.

A Longa Caminhada (Nicolas Roeg, 1971)

Finalmente, é importante para o Olhar de Cinema buscar também, através de sua programação de filmes clássicos, recuperar nomes que não receberam da história mais tradicionalmente contada do cinema mundial a devida atenção e exibir sempre filmes dos anos de formação das bases da linguagem cinematográfica. Assim, o programa com três filmes da cineasta francesa Germaine Dulac (1882-1942) cumpre uma dupla função importantíssima nessa programação. Dulac operou na passagem entre o cinema mudo e o sonoro, desempenhando um papel pioneiro na evolução do cinema como linguagem artística e prática social. A diretora foi uma figura chave para a vanguarda francesa da década de 1920 e também uma das primeiras cineastas a assumir um posicionamento feminista tanto na vida quanto nos filmes. Sua investigação estética tinha como foco aquilo que era específico ao meio cinematográfico, como os jogos de luz e sombra e a relação entre movimentos, resultando em filmes por vezes chamados de impressionistas, surrealistas ou, como ela defendia, “integrais”. Se por décadas a importância fundamental de Dulac foi omitida da historiografia dominante mundial, hoje ela pode ser considerada uma das artistas incontornáveis para qualquer olhar retrospectivo dedicado às primeiras décadas do cinema. Da impressionante filmografia de sensações criadas pela cineasta a mostra Olhares Clássicos irá exibir os curtas ‘Danses espagnoles’ (1928) e ‘Celles qui s’en font’ (1928) e o média-metragem ‘La cigarette’ (1919). Este último filme está celebrando seu centenário este ano.