Foco – Daniel Nolasco

Nascido no interior de Goiás, em 1983, Daniel Nolasco vai realizar seus estudos em cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, onde desenvolve seus primeiros trabalhos em curta-metragem, estabelecendo parcerias e colaborações que se estendem por sua carreira. Retorna ao seu Estado de origem em um momento bastante instigante da produção local, e ali realiza mais alguns curtas, além de seu longa de estreia, o documentário “Paulistas”, em 2017. Também será em meio às paisagens do interior goiano que filma seu mais recente trabalho, o longa de ficção “Vento Seco”, que estreou mundialmente no Festival de Berlim, em 2020, e agora tem sua primeira exibição brasileira no Olhar de Cinema. Junto aos dois filmes mencionados, também compõem a programação da Foco deste ano o longa documentário “Mr. Leather” (2019) e uma Conversa Aberta com o diretor.

Em um gesto mais apressado, talvez pudéssemos elencar dois principais e distintos movimentos nos filmes de Nolasco, separando-os entre os documentários observacionais, com sua porosidade aos tempos e às vidas que se estabelecem em cada espaço filmado, e aqueles que se lançam na (re)formulação de um imaginário para o corpo homoerótico masculino, construídos a partir da encarnação cinematográfica de uma estética fetichista. Perfurando qualquer estabilidade nessa partição e desafiando categorizações fáceis e totalizantes, entretanto, encontramos em seu trabalho um fundamental jogo de contaminação entre a concretude do cotidiano e os desejos e fantasias que o rasgam, em um impulso altamente queer que se estende para além da figuração das dissidências sexuais e suas práticas.     

Programar a exibição de seus filmes no Brasil de 2020, enquanto uma pandemia mal gerida se entrelaça ao regime político de perseguição e aniquilação (material e simbólica) das populações minorizadas, incidindo diretamente no controle e na gestão dos corpos, da vida e da morte, desdobra-se na premência (ou, ao menos, no desejo) de vislumbrarmos futuros mais vivíveis com e através do cinema. Ironicamente, é a partir da revisitação de memórias, na apropriação e reinvenção de referências e imagens oriundas do cinema queer e da pornografia gay anterior à epidemia de HIV/Aids, que emergem, no trabalho do cineasta, prazeres e subjetividades menos confinadas às amarras do presente, insubmissas à captura moralizante da potência erótica e política das experiências não heterossexuais.

Ao mesmo tempo, sua obra desvela paisagens geográficas pouco comuns ao imaginário mais corrente do que constituiria um espaço “tipicamente brasileiro” na tela – quase sempre construído pelo contraste entre as praias deslumbrantes e o sertão ancestral, ou entre as metrópoles sufocantes e a densidade da floresta amazônica. Por estes desvios de qualquer norma, termina encontrando uma expressão ao mesmo tempo absolutamente única, mas na qual muitos aspectos fundantes de uma sensibilidade contemporânea de um outro país possível se deixam antever.

Filmes do Daniel Nolasco na programação do festival: https://olhardecinema.com.br/filmes/f…

13/10 às 16h tem uma Live com o realizador Daniel Nolasco em https://www.youtube.com/watch?v=piO48rq3M0U

Outros filmes do Daniel disponíveis online:
Sr. Raposo: https://vimeo.com/238990883
Netuno: https://vimeo.com/278555002
Plutão: https://vimeo.com/127703378
Urano: https://vimeo.com/76536100
Tatame: https://vimeo.com/278564358
Febre da Madeira: https://vimeo.com/114999838

Filmografia complementar – Curtas Goianos:
– Enquanto a Família Dorme, Getúlio Ribeiro: https://vimeo.com/147944120
– Real Conquista, Fabiana Assis: https://www.youtube.com/watch?v=B1in1…
– Kris Bronze, Larry Machado: https://vimeo.com/255053527