Exibições Especiais

“O Brasil vive no meu imaginário desde minha infância”, diz a grande cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes, cujo mais recente e marcante filme, A portuguesa (2018), terá sua estreia brasileira na mostra Exibições Especiais na oitava edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba. “Uma terra vasta como o mundo; uma terra de contraste, de aflição e de serenidade simultâneas. Exibir um filme meu, em qualquer local desse país, é sempre uma ocasião a ser observada por um ponto de vista parcialmente desconhecido e, por isso mesmo, se torna fascinante e me deixa num estado alerta de curiosidade. No final, não é por acaso que alguns dos mais apurados comentadores, críticos e espectadores que conheço são brasileiros”.

A Portuguesa, 2018

A Portuguesa conta a história de uma jovem rica na Itália medieval que se esforça para se habituar em sua nova pátria enquanto seu marido luta em uma guerra longínqua. O filme, exibido em festivais em Mar del Plata e Berlim, ocorre no passado, mas fala diretamente ao público através de métodos teatrais que trazem uma sensação urgente e comovente do presente. A diretora estará presente ao festival como parte do corpo de jurados, e vai apresentar as sessões de seu filme.

O filme da realizadora portuguesa é um dos cinco programas da mostra Exibições Especiais deste ano. Outro programa apresenta dois novos filmes de mestres brasileiros do cinema experimental. Sedução da Carne (2018), que estreou em Locarno no ano passado, é o mais recente longa-metragem de ficção de Júlio Bressane, cuja apresentação delicada da história de vida de uma escritora viúva dá continuidade aos esforços de um dos maiores cineastas brasileiros em explorar os mistérios da humanidade. O filme de Bressane será exibido junto com o novo integrante da série Sem Título de Carlos Adriano – intitulada Sem Título #5: A Rotina Terá Seu Enquanto (2019) – vencedor da competição de curtas no mês passado no festival É Tudo Verdade e que liricamente intercala material do último filme de Yasujiro Ozu com um passeio de trem na companhia de um novo amor.

Sedução da Carne, 2018

“Os filmes da série Sem Título nascem de uma necessidade vital e desesperada, apenas possível graças à estruturação de uma forma poética de cinema, de uma constelação-montagem de pontos luminosos”, diz Adriano. “Isso para dar conta e encanto (o encantamento contra o desalento; o deslumbre contra o desamparo) da abissal e irremediável condição humana e suas questões tão simples: o amor, o desejo, a fome, a matéria, a morte, o leitfossil. Os últimos filmes de Júlio Bressane mobilizam um sofisticado repertório de eruditos signos culturais para tratar dessas paixões e pulsões viscerais, com rigor intelectual e descomedida carnalidade; para compreender e se compreender. Encontro neles um extraordinário pensamento sensível sobre essas questões”.

Outra sessão da mostra Exibições Especiais presta homenagem a uma lenda do cinema brasileiro, cujas parcerias incluem renomados nomes tais como Bressane, Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, além dela mesma. A Mulher da Luz Própria (2019), dirigido por Sinai Sganzerla, presta homenagem à mãe da cineasta, Helena Ignez, ao permitir que a brilhante e ainda ativa diretora e atriz de teatro e cinema reconte sua vida com suas próprias palavras. A fala de Helena se desenvolve em conjunto com uma rica coleção de material de arquivo, abrangendo mais de seis décadas de sua atuação como uma importante artista e ativista. O filme terá sua estreia mundial dentro do Olhar de Cinema.

“A Mulher da Luz Própria é um filme de um personagem, a mulher e seus filmes realizados como atriz e diretora, desde o Cinema Novo até os dias atuais”, diz a própria Helena. “O resultado é forte, feminista e livre de noções preconcebidas. Ouvi de Sinai que A Mulher de Luz Própria não seria um filme sobre sua mãe. Nesse momento tive certeza que o filme seria bom e interessante”.

Mais uma homenagem será feita à cineasta americana falecida recentemente, Barbara Hammer (1939-2019), dentro de um programa de seis curtas-metragens coletivamente chamados de Diálogos Barbara Hammer. A programação apresenta cópias digitais em alta resolução de dois dos filmes mais conhecidos da prolífica Hammer – Dyketactics (1974) e Força Dupla (1978) – bem como uma bela homenagem de Deborah Stratman à ela, Vever (para Barbara) (2019), cuja estreia se deu esse ano em Berlim pouco antes de sua morte. Esses filmes serão exibidos em diálogo com três curtas brasileiros contemporâneos – Boca de Loba (2018) de Barbara Cabeça, Latifúndio (2017) de Érica Sarmet e X-Manas (2017) de Clarissa Ribeiro.

“Barbara Hammer foi detentora de uma carreira de mais de 40 anos e 100 filmes, tendo falecido em março deste ano após uma longa batalha contra o câncer”, diz Carla Italiano, programadora no Olhar de Cinema. “Mais do que um tributo à realizadora, que foi responsável por um pioneiro e influente cinema experimental lésbico, a sessão propõe aproximar os trabalhos de Hammer feitos na década de 1970 com curtas-metragens de diretoras brasileiras contemporâneas e o último filme da artista Deborah Stratman. A intenção é atualizar a proposta estética de Hammer com o cinema contemporâneo, com atenção especial aos modos não normativos de abordar cinematograficamente os corpos e as sexualidades LGBTQ. Compõe, assim, um mosaico de tempos e imagens em uma proposição assumidamente queer”.

O último programa da mostra Exibições Especiais é o de duração mais longa, mas possivelmente também a sua maior surpresa. A alegre e grandiosa obra de ficção de Patrick Wang, Uma Fábrica de Pão (2018) consiste em dois filmes, cada um com duas horas de duração, que serão exibidos no Olhar sequencialmente, com um intervalo. A história se desenrola em um centro de artes – uma fábrica de pães reformada – de uma pequena cidade no estado de Nova Iorque e apresenta as aventuras de diversas pessoas que produzem teatro, poesia, cinema entre outras atividades e montam atos de resistência contra os esforços capitalistas de fechar o espaço. Apesar de um elenco composto de atores norte-americanos conhecidos tais como Tyne Daly, James Marsters e Janeane Garofalo, Uma Fábrica de Pão ainda não recebeu a merecida atenção. É um dos filmes norte-americanos mais extraordinários dos últimos anos, que canta à favor de expressão artística independente.

“É muito fácil falar em arte independente, outra coisa é apoiá-la”, diz Wang. “Cada vez mais as forças políticas e econômicas buscam sufocá-la, mas um sempre foco resiste aqui e lá. Estou muito feliz por ter encontrado este foco em Curitiba e recebê-lo em nossa irmandade de fábricas de pão”.

Uma fábrica de pão, 2018